Eleições 2026: o caminho do voto

Quatro episódios seguindo um voto só, o seu, do dia em que o programa da urna eletrônica é lacrado até a posse de quem ganhar. Sem candidato, sem partido e sem achismo: só o que TSE, Senado, Câmara e STF botaram no papel.

Os episódios

Episódio 1: Antes do domingo

Quem garante que o programa dentro da urna faz exatamente o que diz?

O Brasil votou no papel por mais de cem anos, com defeitos de fabricação conhecidos: urna trocada no caminho, urna que já chegava grávida de votos, voto em branco que virava voto de alguém na hora da contagem. O episódio mostra o que entrou no lugar: código aberto a quem fiscaliza, um teste em que o TSE chama especialistas para tentar invadir o sistema e um lacre digital a um mês da eleição.

Assistir ao episódio 1

Episódio 2: O domingo: do seu dedo até Brasília

Como o voto chega em Brasília em menos de três horas?

A zerésima, a ordem dos seis votos, o arquivo que embaralha tudo para ninguém descobrir em quem você votou. E o papel colado na porta da seção, que explica por que o resultado sai antes de o jantar esfriar.

Estreia: quinta, 01/10

Episódio 3: Do voto ao eleito

Como saber se a urna contou certo, e como o voto vira eleito?

A prova dos nove da urna, com cédula de papel e câmera ligada. Depois, a conta que transforma voto em cadeira e faz um deputado campeão de votos assistir à posse pela televisão.

Estreia: sexta, 02/10

Episódio 4: O segundo turno

O voto que eu dei no primeiro turno ainda vale?

O que muda no dia 25 de outubro, por que o seu voto do primeiro turno não vai junto e o caminho até a posse, que pela primeira vez em 31 anos não cai em 1º de janeiro.

Estreia: segunda, 05/10

A urna eletrônica é segura? A pergunta que volta de dois em dois anos

A urna eletrônica não tem internet. Não tem Wi-Fi, não tem Bluetooth. Em matéria de conexão, ela é um tijolo com teclado. Mesmo assim, de dois em dois anos, alguém no grupo da família pergunta quem garante que o programa lá dentro faz o que promete. A pergunta é justa. O que costuma ser ruim é a resposta, que quase sempre chega em forma de corrente encaminhada às três da manhã. Resolvemos responder direito. A história começa um ano antes da eleição, passa por um teste em que o próprio TSE convida gente de fora para tentar quebrar o sistema e termina num papel colado na porta da sua seção, que tem a audiência de um aviso de condomínio. Esta série segue um voto só, o seu, por esse caminho todo. Nenhum candidato ou partido aparece por aqui. O que afirmamos saiu de publicações do TSE, dos TREs, do Senado, da Câmara e do STF, e as principais estão listadas no fim da página para quem gosta de conferir.

Antes do domingo: o programa da urna é aberto, atacado e lacrado

Em outubro de 2025, um ano antes da votação, o TSE abriu o código-fonte dos sistemas eleitorais. Código-fonte é a receita do programa, linha por linha, e ela ficou à disposição de quem a lei chama de entidades fiscalizadoras: partidos, Ministério Público, Senado, Sociedade Brasileira de Computação, entre outras. Qualquer uma delas pode ir até lá e ler tudo, o que deve ser tão divertido quanto parece. Em dezembro veio a parte boa. No Teste Público de Segurança, o tribunal chama especialistas de fora e pede, com todas as letras, que tentem invadir. Foram 29 planos de ataque. Quatro encontraram alguma coisa, seis achados no total. Antes que alguém comemore ou entre em pânico: os achados foram corrigidos, os investigadores voltaram em maio de 2026 para conferir e, segundo os relatórios finais, nenhum deles era capaz de comprometer o sigilo do voto nem o resultado. É para isso que o teste serve. Um teste que nunca achasse nada seria bem mais suspeito. No dia 4 de setembro, a um mês da eleição, os programas foram lacrados com assinatura digital, na presença de representantes da OAB, do Ministério Público e da Polícia Federal. Funciona como um lacre matemático: mude uma vírgula e a assinatura para de bater. Dali o programa segue para mais de 563 mil urnas, cada uma isolada do mundo e com bateria própria, porque eleição no Brasil não pode depender de a luz não cair.

O dia da votação, hora por hora

Antes de abrir a seção, cada urna imprime a zerésima, um papel com nome de remédio que prova, na frente de mesários e fiscais de partido, que ela começa o dia sem nenhum voto guardado. Às 8h, pelo horário de Brasília, começa a votação. Quase nove em cada dez eleitores são identificados pela digital. Depois vêm seis votos, sempre na mesma ordem: deputado federal, deputado estadual, dois senadores (são duas vagas neste ano, e precisam ser dois candidatos diferentes), governador e presidente. São seis números para decorar, então leve colinha de papel, que é permitida e não é vergonha nenhuma. O celular é que fica fora da cabine, mesmo desligado. Quando você aperta o verde, o voto vai para um arquivo chamado Registro Digital do Voto, e vai embaralhado. A urna não guarda a ordem em que as pessoas votaram, então ninguém descobre em quem votou o terceiro da fila. E como cada voto fica guardado separado, dá para recontar a urna inteira sem expor ninguém.

Boletim de urna: o papel mais importante do dia é o que ninguém lê

Às 17h a votação termina, e quem já estava na fila ainda vota. É nessa hora que a urna imprime o boletim de urna, com o resultado daquela seção, em no mínimo cinco vias. Uma delas fica colada na porta, à vista de quem passar. Quase ninguém passa. O boletim traz um QR Code, e o aplicativo Boletim na Mão, da Justiça Eleitoral, guarda aquele resultado no seu celular sem precisar de internet. Enquanto isso, o mesmo resultado é gravado numa mídia criptografada, com a assinatura digital daquela urna, e segue por rede privada até Brasília. Desde 2020 a soma do país inteiro é feita num lugar só, o TSE, por recomendação da Polícia Federal. Quando o arquivo chega, o sistema confere a assinatura, e o que não for daquela urna fica fora da conta. Depois o tribunal publica o boletim de cada seção na internet, o que permite a qualquer pessoa, ou a qualquer partido com tempo livre, comparar o papel da porta com o número oficial. É por isso que o resultado sai em poucas horas. Em 2022, a disputa para presidente estava matematicamente definida às 19h56, menos de três horas depois do fechamento das seções. Ninguém conta papel correndo. O sistema soma boletins que já chegam prontos, assinados e conferíveis.

Teste de integridade: a prova dos nove da urna

Sobra a dúvida de quem desconfia até do boletim: e se a urna contar errado desde o começo? Para isso existe o teste de integridade, que o TSE apelidou de prova dos nove. Perto da eleição, em cerimônia pública, urnas que iriam para as seções são sorteadas e separadas para auditoria. No domingo, no mesmo horário da votação de verdade, elas passam por uma votação paralela: pessoas digitam votos que já estavam anotados em cédulas de papel, com tudo filmado e aberto a quem quiser assistir (há programas piores para um domingo). No fim do dia, o boletim é comparado com o papel, voto por voto. Um programa escondido desviando voto faria a conta não fechar. Desde 2022, parte do teste usa eleitores de verdade liberando a urna com a própria digital, a pedido das Forças Armadas, e neste ano o Tribunal de Contas da União também fiscaliza. Um registro para quem lembra da discussão: em 2021 a Câmara votou a proposta do voto impresso. Foram 229 votos a favor e 218 contra, mas mudar a Constituição exige 308, e a proposta foi arquivada. Hoje a conferência se apoia no boletim público, na assinatura digital e nesse teste.

Voto nulo anula a eleição? Como o voto vira eleito

Contado o voto, falta transformar número em gente eleita, e a regra muda conforme o cargo. Presidente e governador ganham no primeiro turno se tiverem mais da metade dos votos válidos. Voto válido é o dado a candidato ou a partido. Branco e nulo ficam fora dessa conta, e aqui cai um dos mitos mais resistentes do país: voto nulo não anula eleição, nem que seja maioria. Se nove em cada dez pessoas anularem, a décima decide sozinha, e provavelmente fica bem satisfeita com isso. Para o Senado é simples: os dois mais votados de cada estado levam as vagas. Para deputado, a matemática fica mais criativa. Divide-se o total de votos válidos pelo número de cadeiras, e o resultado, chamado quociente eleitoral, funciona como o preço de uma cadeira. Cada partido soma os votos de todos os seus candidatos e leva uma cadeira a cada vez que atinge esse preço. Só depois as cadeiras são entregues aos mais votados de dentro do partido, e as que sobram vão para uma segunda rodada com regras próprias. O efeito colateral é conhecido: um candidato com votação enorme, num partido que não alcança o preço, fica de fora, enquanto outro entra com bem menos, puxado pela legenda. Quando você vota num deputado, está votando também no partido dele, queira ou não.

Segundo turno e posse: o que muda depois do dia 4

Onde ninguém passar da metade dos votos válidos, presidente e governador voltam às urnas em 25 de outubro. Deputados e senadores, não: esses foram resolvidos no dia 4. No segundo turno você vota em no máximo dois cargos, e só onde a decisão ficou em aberto. Agora a parte que quase todo mundo erra, inclusive gente que jura que entende de política: o voto do primeiro turno não é transferido para ninguém. A contagem recomeça do zero. Com dois candidatos, ganha quem tiver mais votos válidos que o outro, e branco e nulo continuam fora da conta. Quem faltou no primeiro turno pode votar no segundo sem problema, basta justificar a ausência, já que para a Justiça Eleitoral cada turno é uma eleição separada. Faltou nos dois, justifica duas vezes. Em dezembro vem a diplomação, que é a Justiça Eleitoral confirmando oficialmente quem ganhou. E a posse tem novidade: pela primeira vez em 31 anos, ela sai do dia 1º de janeiro. O presidente assume em 5 de janeiro e os governadores em 6, por uma mudança aprovada em 2021 que estreia nesta eleição. Os convidados da cerimônia, que antes emendavam o Réveillon, agradecem. Deputados e senadores seguem em 1º de fevereiro, como sempre.

O que dá para conferir sem acreditar em ninguém

No dia 4, depois das 17h, passe na sua seção e olhe o boletim colado na porta. Tire uma foto ou leia o QR Code com o Boletim na Mão. Quando o TSE publicar o resultado daquela seção, compare os dois números. Leva dois minutos e dispensa a opinião de qualquer especialista, parente ou canal do YouTube. Inclusive o nosso.

Não dá pra invadir pela internet uma máquina que não está na internet. Pra mexer numa urna, alguém teria que pôr a mão nela.

Fontes